6 de jul. de 2020

Pioneiro: Carlos Corrêa Borges

ANA MARIA BORGES JANOTTO 

Meu pai, um iniciador de Maringá 

Entrevista a Rogério Recco

Ana Maria Borges Janotto fala de seu pai e de quanto ele foi importante para que Maringá começasse a existir: “Era um aglutinador e foi buscar as pessoas para estabelecerem os primeiros comércios”. Mais que um corretor da Companhia de Terras Norte do Paraná, Carlos Corrêa Borges teve papel decisivo para o nascimento da cidade.       


Sua biografia é repleta de aventuras na luta pela sobrevivência. Nascido a 4 de junho de 1906 em Macaé, atual estado do Rio de Janeiro, Carlos descendia de uma família de origem portuguesa e estudou até o segundo grau.  

A vida o conduziu para muitos caminhos e experiências e ele fez de tudo um pouco. Certa vez, durante um incidente na travessia de barco entre o Rio de Janeiro e Niterói, acabou salvando do afogamento um menino cujo pai, dono do Copacabana Palace, o convidou a trabalhar como crupier no cassino do hotel (profissional de cassino responsável por "pagar" todos os jogos do salão). 

Ficou lá por uns tempos, mas seu destino era mesmo a estrada e virou tropeiro. E foi em suas idas e vindas por fazendas fluminenses que conheceu Judith de Aguiar. Casados, foram residir em Macaé e quatro filhos tiveram nessa cidade: Tupan, José Maria e os gêmeos Mário Augusto e Maria da Penha. Mais tarde, transferiu-se com a família para Passa Quatro para ser caixeiro viajante de fumo.  

Ana Maria conta: anos depois, num ímpeto para fazer a vida e buscar a independência, embarcaram todos num trem rumo a Jacarezinho, o final da linha no Paraná, e dali até Londrina, em jardineira, onde se instalaram provisoriamente em uma pensão. O norte paranaense era um novo eldorado. 

Com facilidade para relacionar-se, o recém-chegado fez amizade com Carlos de Almeida, dono de uma serraria, que conseguiu para ele um emprego junto aos ingleses da Companhia de Terras. Mudaram-se então para a vizinha Cambé, à época Nova Dantzig.

Pau pra toda obra, Carlos se juntou ao grupo de trabalhadores que foi abrir uma picada, no facão, até um futuro loteamento da Companhia, chamado Maringá. 

Encarando qualquer tipo de serviço para garantir o sustento da família, ele foi desde leiloeiro a abridor de covas no cemitério. Alegre e falante, se tornou querido entre os moradores, fundou um grupo de escoteiros e, com sua popularidade, chegou a interventor da cidade, época em que já negociava terrenos. Influente, convenceu o médico José Rocha a sair candidato na primeira eleição para prefeito e conseguiu elegê-lo.     

As coisas iam se ajeitando e no ano de 1938 vinha ao mundo mais um filho: Carlos Alberto. A família progredia, habitava uma boa casa quando, em 1943, a prole aumentou ainda mais com o nascimento de Ana Maria. “Naquele mesmo ano meu pai mandou buscar os meus avós maternos Elomy Jaci Tupan e Maria Augusto Tupan, que não tinham mais idade para tocar pensão em Macaé”. Veio com eles uma jovem bela e estudiosa, Dirce de Aguiar Tupan, a irmã mais nova de sua mãe.

Ainda em 1943, prosseguindo com sua saga, a família trocaria o conforto da cidade para viver em um ponto remoto no sertão fechado, onde só havia meia dúzia de gatos pingados: Maringá, que ainda nem patrimônio era. “Meu pai tinha 37 anos e com muita habilidade e coragem, foi vendendo lotes e sítios e, acreditando no futuro do lugar, comprou uma área rural que temos até hoje.” 

Ana Maria conta que, logo ao chegarem, foi aberto um picadão no facão entre o sítio da família e o aglomerado de casas que hoje se conhece por Maringá Velho. 

Sempre muito ativo, o corretor continuou indo e vindo e desbravando o sertão com um pé de bode. Depois, quando a Viação Garcia inaugurou a linha e fez rodar um ônibus à gasogênio, ele passou a embarcar os compradores. “Meu pai era um visionário e já naquela época falava de Maringá como ela é hoje.”  Onde as pessoas só viam mato, ele enxergava uma grande cidade. 

Participativo na comunidade, Carlos coordenou em 1946, no Maringá Velho, com a colaboração de muitos amigos, a construção da capela Santa Cruz, a primeira da área urbana. Ele doou a cruz com a imagem do Cristo para o altar e, segundo Ana Maria, no verso da mesma estão inscritos os nomes de seus familiares, à exceção de Ivo Tupan Borges, o filho caçula, nascido em 1948. Ela garante também que está enterrada por ali, em algum lugar, uma capsula do tempo com os nomes de todos que contribuíram com a obra. 

Assim que a cidade desabrochou e caminhava para virar município, Carlos teria sido convidado para ser o interventor, mas preferiu empurrar a bola para o cunhado Levi Tupã. O corretor era daqueles que estava sempre no centro de uma roda de amigos, não perdia uma festa, uma caçada, gostava de tocar pandeiro e dançava um tango como ninguém. Já Judith era caseira, preferia ficar cuidando dos filhos. 


No Natal de 1950 o corretor preparou um churrasco e mandou tirar uma fotografia da família ao lado de alguns parentes, que ficaria para a história. Ninguém podia imaginar: era a sua despedida. Seguiu depois para o Rio de Janeiro, de onde ainda enviou um caminhão carregado de mudas de frutas para serem plantadas em suas terras e também um britador para a pedreira que ali começava a funcionar.    

No dia 28 de janeiro de 1951, ainda no Rio, Carlos tombou fulminado por um ataque cardíaco, aos 45 anos. “Eu tinha quase sete anos e o meu irmão mais novo apenas dois, quando ele se foi”, diz a filha. 

Aos onze anos, precocemente, Ana Maria começou a dar aulas no grupo escolar construído às margens daquele picadão entre o sítio e o Maringá Velho que, mais tarde, seria a avenida com o nome do seu pai. Recebera o incentivo de tia Dirce, que havia se tornado a primeira professora da cidade. Mais tarde, foi estudar e trabalhou no colégio das freiras, no Maringá Velho. 

Ainda novinha, se tornou figura carimbada no animado auditório da Rádio Cultura e nas sessões do Cine Maringá, acompanhando a mando da mãe o namoro da irmã Maria da Penha e do futuro marido desta, Carlos Eduardo Bueno Netto. “Eu fiz muitas vezes a pé do sítio à cidade, ia e voltava, Maringá era um atoleiro, só se podia andar de botas.” 

Casada em 1968 com Wilson Janotto, Ana Maria é mãe de duas filhas e um filho, avó de cinco netos e bisavó duas vezes. Ela lembra que, confirmando todas as expectativas, Maringá se tornou grande e bonita, recompensando com sobras a aposta feita por aqueles comerciantes e também pelos moradores e sitiantes encorajados por seu empolgado pai.

Fonte: Família Corrêa Borges / Entrevista e contribuição de Rogério Recco / Acervo Maringá Histórica. 

2 comentários:

  1. A História é o oxigênio que mantém a memória de um povo viva.

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  2. Um desbravador digno de honras, Ana. Parabéns por ter colaborado com esta linda cidade.

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