Maringá foi sede da primeira manifestação contra Collor - 1991

1991

Com texto de Reginaldo Benedito Dias.

Maringá na vanguarda do "Fora Collor": crônica de uma cassação anunciada

“Pois é, Gustavão, e pensar que faz apenas um ano que apanhamos da segurança do Collor!” Essa cena, datada de setembro de 1992, ocorreu no curso de uma das passeatas pelo impeachment do então presidente Collor. Gustavo era um dos muitos estudantes secundaristas que aderiram ao movimento, cuja marca, como se pode recordar, eram as caras pintadas. Era uma explosão de juventude, de alegria e de rebeldia.

A exclamação, dirigida com enorme satisfação ao estudante, não era ociosa.  Exatamente um ano antes, o presidente Collor viera a Maringá inaugurar um conjunto residencial no conjunto Taís, conhecido como aquele das casas de 27 metros, e a transferência do pátio de manobras da estação ferroviária.  Houve pompa e circunstâncias. Collor ainda detinha bastante prestígio e, no âmbito do município, havia uma disputa, envolvendo o prefeito Ricardo Barros e o deputado federal Antônio Bárbara, para  verificar quem era mais amigo do presidente. Antônio Bárbara era aliado de primeira hora, enquanto o prefeito estreitava relações com o presidente.

O moderno prefeito Ricardo Barros não dispensou os tradicionais  mecanismos de maquiar as vias de passagem, pintando os meios fios, entre outras coisas. Nas imediações do conjunto popular, o poder público municipal programou um grande ato público e fez comparecer, valendo-se dos meios de que dispunha, uma grande plateia, provavelmente umas 10 mil pessoas.    

O coro dos contentes, no entanto, estava para ser desafinado. Nos meios sindicais e estudantis, organizava-se uma manifestação de protesto, que deveria acontecer no seio do próprio ato público. Já se ensaiava, nos movimentos sociais, o grito “Fora Collor”. Não seria algo muito ostensivo, porém. Apenas a abertura de faixas e distribuição de panfletos, que falavam do Brasil nos tempos do “collera”.  Todo cuidado era pouco, no entanto. Afinal, não era segredo que haveria um grande aparato de segurança, como exige a presença do chefe de Estado da União. 

Qual seria o grau de tolerância com a manifestação? Após algumas reuniões de preparação, estabeleceu-se que os manifestantes se dividiriam em dois grupos, cada qual acompanhado por um advogado, e que haveria um registro fotográfico próprio, a fim de denunciar quaisquer represálias. Checados todos os preparativos, os manifestantes procuraram chegar cedo ao local, pois era necessário ocupar os principais espaços.

Um primeiro foco de tensão ocorreu quando tentaram confiscar os panfletos. Outro, quando tentaram impedir e confiscar o registro fotográfico. Formada a multidão, os manifestantes, que não totalizavam mais do que algumas dezenas, ficaram praticamente imperceptíveis. O ato começou e, quando menos se esperou, a situação saiu de controle. 

Ocorre que os estudantes abriram uma faixa em que havia um gesto obsceno, aquele do gesto em riste. A segurança tentou tirar a faixa e constitui-se um verdadeiro cabo de guerra. A segurança puxava a faixa para lá, os manifestantes puxavam para cá. Uma advogada virou manifestante e, diante da ação repressiva, tombou no chão. O autor destas linhas tentou apartar algumas brigas, mas acabou levando um sopapo no olho. O olho não foi atingido, mas seus habituais óculos de aro redondo foram pelos ares. 

Cotoveladas de um lado, pontapés de outro, arranhões aqui, hematomas ali, e o tumulto foi sendo superado. Duas detenções foram efetivadas. Detalhe: os estudantes não entregaram a faixa. O presidente, que a tudo assistia do palanque oficial, fez seu discurso e a cerimônia caminhou para seu final. Os manifestantes, com o esvaziamento do local,  procuraram retirar-se rapidamente, temendo que a repressão pudesse se valer da circunstância.  No outro dia, os quatro principais jornais do país – Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil - estamparam o episódio em suas primeiras páginas. 

 Superado o susto e feito o balanço das avarias físicas, os manifestantes puderam avaliar melhor o ocorrido. Por causa da repressão, a repercussão da manifestação tinha sido muito maior do que o previsto. Se permitissem a livre manifestação, teria sido um protesto local, sem maior eco. Como tentaram impedir e a situação saiu de controle, o fato atingiu repercussão nacional. 

Um ano depois, estávamos nas passeatas pelo impeachment. Gustavão e outros estudantes, que haviam participado da manifestação de 1991, eram líderes do novo movimento. Nós, os militantes mais velhos, só engrossávamos as fileiras e seguíamos, encantados, a organização juvenil. Maringá não foi das primeiras cidades a ter passeatas pelo impeachment. Foi, no entanto, sede da primeira manifestação contra Collor a repercutir nacionalmente, ou seja, foi pioneira nos protestos que, avolumados, desembocaram no processo de impeachment. Naquelas passeatas, talvez poucos tivessem ciência disso, mas quem quiser estudar todo o processo que levou à cassação do mandato de Collor descobrirá que Maringá saiu na frente, um ano antes de o Brasil inteiro pintar a cara.  

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O fato ocorreu em 2 de agosto de 1991, conforme noticiado na capa da Folha de S. Paulo de um dia depois:


Fonte: texto de Reginaldo Benedito Dias / Acervo Folha de S. Paulo / Acervo Maringá Histórica. 

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