Incêndios em uma madrugada de primavera - 1975

1975

Com texto de Marco Antonio Deprá

O quartel do Corpo de Bombeiros, situado na avenida Guaíra, nº 76, na Zona 7, foi inaugurado em 31/03/1973, na época em que  o 1º Tenente Amaury Antonello era o comandante da corporação.  Um ano depois, em 19/03/1974, o 2º Tenente Miguel Kfouri Neto assumiu o comando da corporação na cidade. Apesar de estar instalada em um moderno edifício, a unidade contava com apenas 18 homens e carecia de investimentos em equipamentos e veículos, fato que norteou a atuação do comandante no sentido de ministrar cursos e treinamentos aos soldados, estudantes e a funcionários de grandes empresas, com o foco na prevenção e em técnicas de combate a incêndios.

O ano de 1975 foi marcante para a população de Maringá e de todo o Norte do Paraná. Na madrugada do dia 18 de julho daquele ano, ocorreu a terrível geada negra, que destruiu grande parte dos cafezais paranaenses e provocou uma crise econômica sem precedentes na região. Foi neste contexto que, em uma madrugada de início da primavera daquele ano, o Corpo de Bombeiros foi chamado para combater um grande incêndio no centro da cidade.

Às 4h45m da madrugada da segunda-feira, dia 29/09/1975, o Corpo de Bombeiros foi acionado para combater as chamas que já atingiam cerca de 20 metros de altura. Quando 15 bombeiros chegaram ao local, as chamas já haviam consumido o edifício térreo, situado no lote nº 3, da Quadra 8, da Zona 1. 

Localizado na avenida Brasil, nº 3264, próximo da avenida São Paulo, o prédio era construído em alvenaria e madeira, o que facilitou a propagação do fogo. Coube aos bombeiros somente a contenção das chamas, para não se espalharem para os prédios vizinhos, e fazerem o trabalho de rescaldo.

Naquele momento, o fogo ameaçava destruir as construções do lote vizinho, de nº 2, onde estavam instalados o Bar Seleto e a Discolândia. Já nos lotes nº 4 e 5, havia risco de o incêndio atingir as antigas instalações da Casa Universo, que há cerca de 15 dias havia se mudado para a avenida Herval.


Situação do imóvel da avenida Brasil, nº 3264, após o incêndio.

No prédio sinistrado estavam instalados dois estabelecimentos comerciais: a Relojoaria Pérola, de propriedade de Manoel Pedro de Lima; e a Drogaria e Farmácia Central, de Lázaro Claro da Silva, mais conhecido por Lazinho. Nos fundos do terreno havia outra construção, que abrigava uma “república” – moradia compartilhada por estudantes e trabalhadores. Não houve pessoas feridas nesta ocorrência. 

Poucos minutos depois de chegarem ao local, os bombeiros foram novamente acionados, desta vez para combater um incêndio em uma residência situada no Lote nº 4, da Quadra 136-A, na Zona 7, localizada na rua Clementina Basseto, nº 72. A residência, construída em madeira, foi totalmente destruída, mas não houve pessoas feridas, com exceção do proprietário, o pedreiro e carpinteiro João Vaz Simões, que teve pequenos ferimentos ao tentar salvar das chamas alguns de seus pertences. A residência ficava a cerca de 1.400 metros da Relojoaria Pérola, local do primeiro incêndio.


Localização da Relojoaria Pérola e da residência de João Vaz Simões.


Residência de João Vaz Simões, totalmente destruída. No fundo do lote restou uma pequena construção, intacta, que passou a abrigar João e sua família.


João Vaz Simões e parte de seus familiares em frente à pequena casa que restou nos fundos de seu lote, que passou a abrigar sua família.

Mal chegaram ao local, os bombeiros foram acionados uma terceira vez naquela madrugada, agora para combater as chamas que consumiam um veículo Volkswagen Kombi, estacionado no Posto Petrocafé, localizado no Km 130 da Rodovia do Café, próximo ao Clube Olímpico de Maringá, a cerca de 4.900 metros da residência de João Vaz Simões. O veículo estava em chamas, colocando em perigo as bombas de combustíveis do posto e uma pilha de pneus próxima ao local.


Localização da Relojoaria Pérola, da residência de João Vaz Simões e do Posto Petrocafé, na saída para Mandaguaçu.

Ao chegarem ao Posto Petrocafé, os bombeiros viram que havia um homem deitado no chão, inconsciente, ao lado do veículo. Imediatamente fizeram os primeiros socorros à vítima e a levaram para o Hospital Santa Rita, situado na praça 7 de Setembro. A vítima faleceu poucos minutos depois de chegar ao hospital.

Depois de amanhecer o dia, os órgãos de segurança iniciaram as investigações para elucidar as causas daqueles incêndios. Logo perceberam que havia um elo de ligação entre os três eventos trágicos. Segundo o que foi publicado nos jornais, nos dias seguintes, Manoel Pedro de Lima, proprietário da Relojoaria Pérola, “estava em péssimas condições financeiras, com dívidas, títulos protestados e ação trabalhista contra sua pessoa”.

Os jornais informaram que as investigações apontaram Manoel Pedro de Lima como o causador dos incêndios.

Os jornais também informaram que, depois de atear fogo em sua relojoaria, na residência de João Vaz Simões e em sua própria Kombi, Manoel Pedro de Lima ingeriu um litro de benzina, o que teria causado sua morte. De acordo com o Registro de Óbito, Manoel Pedro de Lima era natural de Juazeiro do Norte (CE), filho de Antônio Pedro de Lima e de Maria Deonira da Conceição. Ele faleceu em 29/09/1975, aos 58 anos de idade. O atestado de óbito foi assinado pelo Dr. Helenton Borba Cortes. 

As investigações também apontaram que João Vaz Simões era pai do ourives Antonio Simões, ex-funcionário da Relojoaria Pérola, que havia movido ação trabalhista contra Manoel Pedro de Lima.

Atualmente, no lote onde estava instalada a Relojoaria Pérola e a Drogaria e Farmácia Central funciona a Loja G.

Fontes: https://www.familysearch.org/pt/global / Acervo de jornais da Gerência do Patrimônio Histórico, da Secretaria Municipal de Cultura de Maringá / Folha do Norte do Paraná / O Diário do Norte do Paraná.

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